terça-feira, 25 de setembro de 2012

Prisão sem muros

libertas quae sera tamen - Parte 2 de 2


          A floresta era fantástica, de cara era notável grande diferença daquelas do outro lado do mar. Parecia ter muito mais vida, sons de animais por todos os lados, principalmente de pássaros, pequenos primatas corriam pelas árvores para observar o recém chegado. Com certeza passaria muito tempo ali para pesquisar todas aquelas novas formas de vida que não conhecia. Procurou um lugar para formar uma base, andou em direção a montanha que tanto lhe tinha impressionado, ela não podia ser vista de dentro da mata fechada, mas a direção era conhecida. Depois de algumas horas de caminhada, alcançando o sopé da grande montanha Joroln maravilhou-se novamente, uma árvore estrondosa, se erguia maior e mais bela do que todas as outras, como uma rainha entre as outras, soberana na floresta. Sem a menor dúvida era ali que iria morar enquanto fazia suas pesquisas pela área, a árvore lhe proporcionaria o abrigo e o conforto necessário.
            Toda aquela sensação de ligação que os outros elfos tem com as árvores, que há algum tempo tinha se passado, voltara imediatamente ao contato com aquela árvore maravilhosa, mãe daquela floresta, que representava toda a natureza do lugar. Iniciou o reconhecimento e a catalogação da fauna e da flora, ainda não tinha subido muito na montanha, que inicialmente tinha lhe encantado tanto. Ficava bem próximo a ela, onde agora morava, meses se passaram e Joroln não percebia o tempo passar. Também não percebeu que cada vez mais sua relação com ela se aprofundava, ele podia sentir seu espírito, se integrar com a natureza da floresta através dela.
            O elfo e a árvore se completavam, não só Joroln se sentia bem, mas ela tambpem se alegrava com a presença dele. Um fazia bem para o outro, e toda a floresta exalava vida como nunca. A harmonia era perfeita entre os dois seres, mesmo sendo ele tão diferentes.
            Inicialmente a pesquisa ocupava todo seu tempo durante o dia, e a noite voltava para seu refugio descansar e organizar as ideias. Planejou conhecer mais sobre o ambiente da mata antes de escalar a montanha, mas esse plano não deu muito certo. Depois dos primeiros meses, cada dia que passava a pesquisa de campo tomava menos tempo, todo o resto acabava por esquecido enquanto sua relação com a árvore chegava a um ponto transcendental. Aos poucos foi esquecendo do porque estava ali, sentia-se completo somente por estar onde estava, não movia-se para longe de sua morada, o mínimo necessário para conseguir água e alimento, Joroln parecia estar em transe, mas se sentia bem como estava.
            Três anos se passaram desde sua chegada àquela terra, o elfo se encontrava totalmente diferente do momento em que aportou na praia a quilômetros de onde residia agora, nem mesmo se movia para fora da árvore, ficava dias sem colocar sequer o pé no chão, se alimentava das folhas e da casca, bebia a seiva, estava magro e doente, definhava. A árvore também sentia os danos, sua imponência tinha se apagado, as folhas não mais brilhavam, a raiz estava fraca e, juntamente com Joroln caminhavam para a morte. Toda a floresta sentia as dores, os animais eram cada vez menos frequentes, as outras plantas murchavam, como que seu espírito estivesse sendo sugado.
            A situação chegou a um ponto que o elfo desmaiou, desnutrido e desidratado em cima da árvore, a força vital fugia de seu corpo, que permanecia preso ao que antes era sua vida, e estava quase se tornando seu tumulo. Dias se passaram e a morte só não chegou porque até mesmo seu espírito se negava afastar-se dali. Seu corpo inerte escorregou pelo tronco e bateu com força no chão, nem mesmo assim não recobrou a consciência, que só voltou com uma chuva torrencial que atingiu a floresta. A água fria molhava seu rosto e ao mesmo tempo escorria pelo chão, por debaixo dele, e aos poucos aquilo o trouxe de volta, com dificuldade levantou enquanto a chuva ainda caia em seu rosto. Olhou para ela, também quase morta, teve vontade de subir de novo, mas percebeu a realidade da situação, viu a árvore que tanto adorava quase morta, e percebeu-se ainda pior, e todo o ambiente em volta parecia moribundo, sabia que deveria partir, mesmo estando em péssimas condições, tinha que se afastar.
            Pegou algumas poucas coisas ali pelo chão mesmo e com o resto das forças que tinha seguiu em sua missão, foi em direção à montanha. Olhou para traz já com saudade e a certeza da experiência única em sua via. Tinha em sua mente a incrível relação que construiu com aquele ambiente, centralizado na árvore, inicialmente sentindo-se o mais feliz dos elfos, mas que com o tempo se tornou maléfica para ambos os lados. Conseguiu se libertar do transe e sentia-se outra vez livre.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Prisão sem muros

Um estranho no ninho - parte 1 de 2


            Em tempos imemoriáveis, quando a raça humana ainda se amontoava em cavernas e pouco se diferenciava de outros hominídeos, uma outra espécie dominava o planeta. Os elfos reinavam soberanos sobre as outras espécies, com a diferença de que viviam em harmonia com o meio ambiente.Suas cidades se misturavam às florestas, sendo parte delas, perfeitamente integradas.
            Como eles chegaram aqui e para onde eles foram não é o ponto dessa estória, e sim a aventura de um jovem elfo chamado Joroln. Que era bem diferente dos outros de sua espécie em uma coisa, não se sentia bem em sua cidade-floresta. Os elfos, no geral, passavam a vida toda em suas cidades , saindo o mínimo possível, normalmente apenas viajando de uma para outra, mantendo o contato entre as nações élficas.
            Joroln cresceu imaginando como seria o mundo além das fronteiras de sua cidade sem nunca se sentir preparado para viver sozinho em terras distantes. A cidade onde vivia era a maior das nações élficas, ocupava um espaço maior que as atuais megalópoles humanas, contudo, se fosse sobrevoada, nem mesmo seria percebida como além de uma floresta. Ele andava por todos os lados da cidade, ainda jovem, mas um dos que mais conhecia aquela cidade, outros elfos não costumavam nem mesmo afastar-se muito além dos arredores de onde cresciam. Aqueles eram os costumes e a vida tranquila, com tudo o que precisavam. Apenas Joroln não se sentia bem, restrito aquele lugar, sentia-se preso.
            Quando completou sua maioridade devia escolher sua função na sociedade, não teve dúvidas ao escolher ser explorador. Foi facilmente aceito pelo conselho da cidade, pois muito poucos queriam aquela função, por muitas vezes ninguém. Joroln passou por um treinamento de sobrevivência em diversos ambientes e conhecimento de outras culturas. O treinamento durou vários anos, mas o tempo para os elfos é diferente.
            Já nos anos finais do aprendizado ele ia sozinho a vários lugares fora de sua cidade, as vezes até algumas outras cidades, mas nunca onde não havia sido mapeado por outro explorador anteriormente. Quando o treino foi terminado recebeu sua primeira missão, relativamente simples, iria com outro explorador continuar o mapeamento de uma zona árida a leste de sua cidade. Era uma viagem curta, voltaria em mais ou menos um mês, seria a primeira missão de Joroln como explorador e a última de seu companheiro.
            O percurso foi tranquilo, o elfo mais velho era muito experiente e conhecia bem o caminho, tinha desbravado sozinho a maior parte daquela região. Em uma semana de viagem, partindo da fronteira da cidade, eles alcançaram a orla da imensa floresta onde viviam. Dali pra frente o clima ficava cada vez mais árido, a medida que iam em direção ao leste, até a área que iria ser mapeada. Em mais uma semana  estariam em pleno deserto, já em uma zona inexplorada.
            Joroln nunca tinha estado em um deserto como aquele, um mar de areia, um vazio sem fim. Depois do primeiro dia caminhando e catalogando a região, ao por do sol começaram a armar as tendas para dormirem. Quando terminaram de arrumar o acampamento ele percebeu, jamais havia dormido fora de uma árvore, aquilo o deixou transtornado, só assim percebeu o quanto estava acostumado com seu ambiente nativo. Não dormiu nada aquela noite.
            Os elfos tinham uma ligação muito forte com a floresta, principalmente com as árvores, mais do que simplesmente uma moradia, sentiam-se parte daquele ambiente. A semana que passaram no deserto foi muito angustiante para Joroln, ele só pensava em voltar para o conforto da floresta. Depois dessa primeira viagem ele passou a ser o único explorador da cidade, e teria de voltar ao deserto sozinho.
            O tempo passou, e a cada viagem, a cada quilometro explorado Joroln se sentia menos incomodado pelo fato de não estar em uma floresta, mesmo assim a desejava todo dia que estava longe dela. Não mais sentia a sensação de estar preso, as explorações passaram a ser a maior parte de sua vida, enquanto a cidade e seu povo ficavam para trás. As vezes ficava mais de um ano em um ambiente, para pesquisar todas as estações, conheceu os mais diversos lugares e explorou também o mar. Se tornou muito experiente e conseguia cobrir cada vez mais terreno, coletava muitas informações dos lugares aonde ia, fauna, flora, geografia. Criou fama entre os elfos e por algumas vezes fez explorações para outras nações. Um dia recebeu um pedido de uma cidade ao norte da sua. Ainda mais ao norte havia um mar que nenhum explorador  jamais havia conseguido ultrapassar, apenas se sabia que existia terra do outro lado.
            Joroln aceitou o pedido como um desafio, nunca havia estado naquela costa. A sensação de estar em um lugar desconhecido e as histórias sobre o que haveria depois fizeram-no ficar tão animado como em sua primeira viagem. Tudo o que sabia sobre o outro lado era que os outros elfos que tentaram e voltaram, avistaram uma distante montanha. O mar era revolto, e a primavera teve de ser esperada para os ventos estarem na direção certa, o barco era o maior que ele já havia navegado e levava comida e água, supostamente,  suficientes para a ida e a volta. Foi sozinho, ninguém mais aceitaria aquela missão, nenhum elfo sentia-se bem à ir em direção ao desconhecido, Joroln era realmente um elfo muito fora do comun.
            Uma grande preparação foi feita, pelos relatos anteriores a viagem duraria cerca de um mês  até a costa do outro lado do mar, se nada desse errado. Joroln partiu nos primeiros dias da primavera, o vento soprava forte na vela e levava o barco em direção ao norte, para o mar aberto. Em poucas horas só se via água por todos os lados, completamente sozinho, atarefado com a coisa que mais gostava, livre.
            O percurso era muito duro, apesar da distância não ser tão longa, em outras águas mais calmas teria coberto mais que o dobro do espaço no mesmo tempo. O vento em mar aberto não ajudava-o como ele esperava, as correntes marítimas eram muito fortes e o distanciavam de sua meta. Com quase um mês passado desde sua partida avistou a ponta da montanha que haviam descrito, era a única coisa que indicava terra firme. Naquela noite uma forte tempestade quase afundou o barco, Joroln ficou toda a madrugada lutando contra a tormenta tropical, que por pouco não o matou, se o barco virasse não teria a mínima chance de sobreviver. Quase ao amanhecer, já com o mar mais calmo, caiu exausto no convés e dormiu a maior parte do dia. Quando acordou o sol já se adiantava a oeste, e sem saber como o barco tinha sido levado à apenas alguns quilômetros da praia, percebeu-se próximo ao seu destino.
            No entanto o que realmente chamou a atenção do elfo foi a imensa montanha, que se erguia colossal por detrás da floresta costeira. Ainda estava distante, mas já tomava boa parte da paisagem, um cenário lindo. Em sua base a floresta avançava até boa altura, depois davam lugar a escarpas rochosas e em seu cume a neve se acumulava, devido a altitude elevada. De imediato tratou de avançar em direção a praia para poder ter um descanso depois de tanto tempo no mar, queria conhecer aquela floresta, e mais ainda a montanha.
            Ao tentar avançar em direção à terra logo percebeu que não seria uma tarefa fácil. Uma corrente marítima cortava a costa e jogava a embarcação de volta para o mar aberto, aquele últimos quilômetros pareciam intransponíveis. Joroln decidiu esperar o anoitecer, torcendo para que o vento mudasse de direção, e soprasse para a costa, uma de suas velas tinha sido rasgada na tempestade da noite anterior e somente a menor lhe sobrava. Foi necessário muito esforço e perícia para vencer a corrente, era madrugada quando o barco, com muitas avarias, aportou na praia desconhecida.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Herói de brinquedo


            Leonardo crescera no subúrbio da cidade de São Paulo, filho caçula de uma família de classe média, sem muitas posses, mas também sem passar necessidades. Seu pai Eduardo, era operário da mesma fábrica desde muito novo, e tinha um salário razoável, sua mãe Vanessa, era secretária em uma multinacional. O mais velho dos filhos era Felipe, um garoto alto, bonito e esforçado, motivo de orgulho para os pais. Paula era a única menina, talentosa e inteligente e muito amável com todos. A casa deles vivia alegre, com as poucas preocupações que causam uma grande metrópole. Pode-se dizer que eram uma família feliz, até o dia que jamais esquecerão.
            Imaginação, essa seria a palavra usada para definir o alegre garoto que brincava diariamente com seus bonecos de super heróis. Leo era tímido e introspectivo, nem por isso deixava de ter muitos amigos. Além das grandes aventuras com heróis imaginários, ele brincava com os garotos do prédio onde morava. Na escola tinha boas notas, era um garoto inteligente, no entanto um pouco distraído. Um professor de história, o favorito de Leo, sempre dizia “Esse garoto viaja demais, isso é ótimo, ele vai longe”.
            Durante muito tempo a maior paixão de Leonardo tinham sido as histórias em quadrinhos, e mesmo dando importância a outras coisas nunca as deixara. Quando pequeno se divertia com a Turma da Mônica, lá pelos 12 anos os super-heróis enfeitavam seu quarto e sua mente. Era fascinado por aquelas estórias de pessoas com poderes incríveis, que salvavam o dia, envoltos em uma máscara e mistério. Por diversas vezes sonhava que fazia partes daqueles heróis camuflados, muitas desses sonhos eram enquanto ele estava acordado.
            Leonardo continuava crescendo, mas sua imaginação não se perdera, como acontece com a maioria das crianças. Com 16 anos já tinha lido mais do que a maioria das pessoas lê durante toda a vida. Sempre estava com um livro na mão, seus preferidos eram os de fantasia, nem por isso largou os hq’s. Os super heróis ainda eram companheiros constantes na sua vida. Passava sempre na banca pra dar uma olhada nas novidades, e seu computador era abarrotado com as mais diversas estórias.
            Um dia quando Leo saia da escola, entretido pensando num trabalho de português em que teria de escrever uma estória qualquer, ele avançou pela rua sem perceber que o farol estava aberto, inebriado em sua imaginação fantástica. Um carro veio em sua direção, o motorista fez uma manobra para tentar desviar do garoto na rua e acabou subindo na calçada. O som da brusca freada tirou Leonardo do seu quase transe, e quando ele olhou para o lado viu o carro avançando por cima da calçada e as crianças correndo. Mas uma em especial, Sara, ficou paralisada com a situação, com o carro indo em sua direção, Leo gostava dela desde a oitava série. Com um reflexo muito rápido Leo sai correndo em direção a garota para tentar salva-la. Mas não existia tempo hábil para a manobra. Ele conseguiu chegar à garota, agarrou-a e girando o corpo tomou seu lugar à frente do carro. Os dois foram atingidos, e ele tomou quase todo o impacto, rolaram por cima do capô e caíram ao lado do carro. Leonardo desmaiou na hora, tinha um ferimento na cabeça, que bateu no pára-brisa do carro, e Sara ainda em seus braços. A garota estava em estado de choque com tudo que estava acontecendo.
            Momentos depois Leonardo acorda, sentindo uma forte dor de cabeça, mas consegue se levantar, no lugar onde seu corpo tinha se chocado com o carro havia um grande amassado, como se uma arvore tivesse caído sobre o automóvel. Preocupado com a garota ele tenta ajudá-la, e consegue ver que ela não tem ferimentos graves, pelo menos aparentemente. A ambulância chegou um pouco depois e levou os dois adolescentes e o motorista do carro, que também sofreu alguns ferimentos. No entanto, estranhamente Leonardo se sentia bem, a dor tinha passado e o sangramento já não existia, no hospital foi liberado rapidamente. Aquele dia passou muito conturbado, com as famílias chegando para ver seus filhos no hospital, mas o acidente não passou de um grande susto.
Nos dias que se seguiram Leo se sentiu muito bem, nem parecia ter sido atropelado, apenas notou que ouvia coisas estranhas, como se fossem vozes em sua cabeça, não contou nada para não deixar ninguém assustado. Mesmo afirmando que se sentia bem, seus pais o obrigaram a passar a semana toda em casa descansando, na semana seguinte voltou a sua rotina normal.
            Domingo à noite teve um sonho estranho, em que estava na cama com sua mãe segurando-o pela mão enquanto chorava e pedia pra ele voltar. No dia seguinte na escola, todos queriam saber como ele estava e perguntar sobre o acidente. Sara estava bem e quase não se lembrava do que aconteceu. Na aula de educação física, enquanto jogavam basquete, foi onde ele percebeu que as coisas não estavam normais. No final do jogo, ganhavam por um ponto, e o arremesso do adversário indo direto pra cesta. Olhou fixamente para a bola torcendo para não entrar, quando de repente, a bola tomou uma trajetória totalmente diferente e foi jogada longe. Leonardo sentiu uma pequena dor de cabeça e se agachou, as vozes em sua cabeça ficaram mais altas e nítidas, eram muitas. Em alguns momentos percebeu que escutava os pensamentos de todos ali. Não ficou assustado, imaginou como aquilo acontecera e se conseguiria controlar, pensou no acidente, na batida na cabeça; e nesse momento viu uma mulher toda de branco do seu lado, que logo desapareceu.
            Sua cabeça fervilhava com toda aquela informação, mas ao invés de ficar assustado, Leo ficou muito animado. Era tudo o que mais sonhara, a vida inteira tinha lido sobre os grandes heróis nas hq’s, e agora poderia ser um. Foi correndo pra casa para testar seus super poderes, queria saber do que era capaz e como usar.
            No seu quarto, lembrando da bola desviada, começou tentando mover objetos com sua mente. Partiu de coisas pequenas como uma caneta, um caderno, e em menos de uma hora já estava levantando sua cama até o teto, um lápis voou em alta velocidade pela janela e cravou com força em uma árvore do outro lado da rua. A telecinésia estava testada, faltava conferir se conseguia controlar aquelas vozes em sua mente, telepatia era outro poder que tinha. Do lado de fora do quarto da irmã se concentrou para ouvir seus pensamentos, percebeu rapidamente que ela estava no computador conversando com seu namorado, em mais alguns minutos ficou muito envergonhado com o que ouvira e saiu dali. Usou seu poder também para conversar mentalmente, chamou por sua mãe que estava na cozinha. Ela ouviu e respondeu como se ele estivesse gritado da sala. Leonardo estava pronto para usar seus poderes, continuou treinando para aperfeiçoá-los.
            Leonardo estava pronto pra ser um super herói, mas não podia sair usando a camiseta da escola, e um collant estava fora de cogitação. Foi até o quarto do irmão e catou algumas roupas antigas. Uma bota, uma calça e uma camiseta, tudo preto, e pra completar uma jaqueta de couro e óculos escuros; já tinha seu uniforme. Pegou também o radio amador portátil do seu pai, como nos quadrinhos que conhecia, tinha que ter acesso ao rádio da polícia. Foi pra uma área movimentada da cidade conhecida por muitos assaltos e esperou, não demorou muito o rádio da polícia avisava de um roubo perto de onde ele estava. Leonardo saiu correndo na direção indicada com o coração disparado, quando chegou ao local viu um homem armado dentro de um carro, com uma refém. Foi andando lentamente na direção do carro, alguns policiais já faziam um cordão de isolamento e tentavam negociar. Leo utilizando-se de um pequeno momento de distração do bandido usou seus poderes para fazer a arma voar longe, logo depois o homem foi preso e a vítima libertada. Leonardo nunca esteve tão feliz em sua vida, era um super herói de verdade. Naquela noite teve outro sonho estranho, estava em um quarto branco e todos seus familiares estavam lá, reunidos em volta de algo que não conseguia ver. Quando tentou chegar mais perto, acordou.
            Durante aquela semana Leonardo passou boa parte do tempo como super herói, deteve alguns assaltantes; salvou uma garota de um incêndio, sabia exatamente onde ela estava dentro do prédio em chamas. Manteve o fogo longe com sua telesinésia enquanto conversava com a garota pra ela dizer como encontrá-la. Até mesmo acabou com um sequestro de um garotinho, fez um trabalho de detetive lendo a mente de alguns suspeitos até descobrir o cativeiro e libertar o menino. Quando usava demais seus poderes se sentia fraco, tinha uma dor na cabeça bem onde havia batido no carro que o atropelara; mesmo assim continuava, era por uma boa causa. Certa vez, depois de levantar um carro para tirar um homem de baixo, chegou a desmaiar por alguns minutos.
            Mesmo com essas dores ele adorava sua nova vida, as pessoas já falavam pelas ruas do super herói de São Paulo, os jornais noticiavam cada uma de suas aparições. Leo era pura felicidade, todos o amavam, e ele amava ser o herói de todos, sua vida parecia um sonho. Em uma noite depois de um dia muito cansativo, Leo acordou assustado escutando sua mãe chorar, pensou logo que mesmo dormindo seus poderes funcionavam e levantou para ver averiguar a situação, mas ela não estava chorando, não estava nem mesmo acordada. Apesar de esses sonhos serem cada vez mais frequentes, e ele ter percebido clara relação com o uso excessivo dos poderes, não deu muita bola pra isso, ser herói era mais importante.
            Fazia cerca de dois meses desde o acidente, quase isso como herói da cidade, Leonardo nem se lembrava mais como era sua vida antes de tudo isso acontecer. Ele fazia uma ronda na zona oeste da cidade, próximo a rodoviária, quando escutou por seu rádio que ocorrera um grave acidente na ponte estaiada sobre o rio Pinheiros, com vários feridos; pediam toda a ajuda possível, urgente. Sabia que aquilo era com ele, mas estava tão longe, e precisava chegar muito rápido ao local, para salvar o maior número de pessoas.
            Pensou, então, numa maneira mais rápida de se locomover, seria arriscado, mas necessário. Concentrou-se e colocou toda a força de sua telecinésia em seu próprio corpo e se lançou pelo ar, em alta velocidade na direção da zona sul. Sem nem mesmo saber se essa tentativa daria certo, percebeu que conseguia controlar seu corpo no ar. Chegou rapidamente até o local do acidente, a aterrissagem foi um grande esforço, a velocidade era muito alta, contudo ele se saiu bem.
            A situação era terrível, um engavetamento de vários carros tinha deixado vários feridos, e o pior era um ônibus escolar cheio de crianças, que pendia na beirada da ponte quase caindo no rio. De imediato Leonardo sabia o que tinha de ser feito, e correu em direção ao ônibus para puxá-lo de volta, ninguém mais poderia fazer esse trabalho; um guindaste jamais chegaria a tempo. No entanto o ônibus era pesado demais, nunca tinha levantado tanto peso, se esforçou muito, muito mais do que pensara ser possível. Tirou forças do incentivo das pessoas na ponte, que ovacionavam seu esforço. Lentamente o ônibus foi subindo de volta para a ponte, a cada centímetro de subida a dor na cabeça aumentava. Quando as crianças estavam a salvo ele foi ao chão, exausto e com muita dor, um som muito alto, agudo e contínuo começou tocar em sua cabeça, e isso se misturava com o som dos aplausos e gritos de todas as pessoas.
            O som e a dor eram cada vez mais fortes – piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii – era tudo o que conseguia ouvir, a dor de cabeça era muito forte e de repente um grande impacto no peito, só que não via nada lhe acertando. Quando percebeu estava deitado de costas no chão e veio outro impacto, tudo desapareceu num clarão branco e num relance se viu num hospital com várias pessoas em volta, eram médicos tentando reanimá-lo. A consciência se foi tão rapidamente quanto veio, o som agudo vinha de um monitor cardíaco e os impactos no peito vinham de um desfibrilador, as dores de cabeça eram provenientes da pancada no pára-brisa do carro. Tinha estado todo esse tempo em coma, sonhando. Mas o sonho tinha acabado, juntamente com sua vida.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O andarilho - parte 2

Filosofias de um morto

Tudo parecia diferente agora. Henrique tentava se lembrar de alguma coisa, mas nada lhe vinha à cabeça, até parecia que seu cérebro tinha se desligado. Nem mesmo seu nome ele lembrava, por mais que se esforçasse nada lhe vinha em mente.

A sala estava vazia quando Henrique acordou para o pós-vida; seu filho já havia partido, não que isso fizesse muita diferença agora. Tempo era outra coisa que ele já não compreendia, minutos e horas já não significavam nada. Por alguns minutos ele ficou ali parado, de pé, no meio da sala tentando pensar, e sem saber o que fazer. Mas noutro ponto do hospital as coisas não estavam tão tranqüilas, policiais procuravam controlar a situação atirando nos zumbis. Isso atraiu muito a atenção de Henrique, que deixando suas tentativas filosofais de auto-existência, saiu em direção ao barulho dos tiros. Não que ele entendesse o que estava havendo ou mesmo que som era aquele, no entanto ele sentia uma imensa necessidade de ir em direção ao barulho, algo como um instinto.

Ao andar pelo corredor em busca do som, Henrique se deparou com outras pessoas, que como ele, iam atrás do som dos tiros. Ele não teve muito tempo para refletir sobre aquelas outras pessoas, estava interessado demais no som para pensar em outras coisas. Mais disparos lhe chamavam a atenção, assim apenas deu uma olhada para o lado enquanto caminhava e viu uma enfermeira toda suja de sangue e com um grande ferimento na cabeça, não se importou com aquilo e continuou andando. Andar, Henrique não conseguia se lembrar direito, mas tinha a impressão de que aquilo já fora mais fácil. Ele caminhava lenta e dolorosamente, queria, no entanto não conseguia ser mais rápido.

Finalmente no salão principal, de onde os tiros tinham sido disparados, a cena era cinematográfica, um filme de terror trash. O vermelho do sangue cobria o branco original da sala; o chão, as paredes, sofá e cadeiras, tudo coberto de sangue e restos humanos. Outra coisa que tomava o lugar agora eram os zumbis, cada vez mais chegavam e lotavam a sala, até pelo elevador vinham os mortos andantes.

Henrique ao entrar no salão se deparou com vários outros que tinham chegado antes dele. Os policiais ainda tentavam resistir, apenas três restavam, quatro já estavam sendo devorados. Quando outro foi alcançado, os últimos dois desistiram e correram em direção a porta de saída. Para a infelicidade deles alguns zumbis estavam em seu caminho. Alguns tiros, mais um policial e quatro zumbis mortos, o ultimo policial conseguiu escapar.

O cheiro, aquele cheiro invadia a narina dos zumbis e os atiçava ainda mais, o lugar estava completamente tomado por um fedor putrefato, mas tudo o que os zumbis sentiam era o cheiro de carne fresca. Isso era tudo o que desejavam, jogavam-se em direção aos corpos dos policiais dominados por uma fome esmagadora. Com Henrique não foi diferente, ele foi o mais rápido que podia em direção ao corpo mais próximo. Este já havia sido devorado quase que por completo, os zumbis eram rápidos nisto, para ele sobrara apenas um pequeno pedaço de algum órgão já dilacerado. Isto foi o bastante para querer mais, a fome tomou por completo seus escassos pensamentos. Ele, assim como os outros foram em direção à rua, de onde vinham outros barulhos.

Na rua os zumbis já se espalhavam, não só do hospital, mas de todos os lugares os mortos voltavam à vida e caminhavam em busca de carne. Para os vivos só restava fugir, os poucos que tentavam combatê-los acabava virando comida. Num telão uma emissora que ainda estava no ar anunciava: Os MORTOS tomaram a cidade, fujam para o interior. E imagens de zumbis andando pelas avenidas, comendo pessoas eram mostradas.

Henrique, que estava atrás de algo para saciar sua fome, andava pela avenida em direção há pessoas que corriam para se salvar. Algumas abandonavam seus carros devido ao trafego, outras pensavam manter-se protegidas dentro de seus automóveis. No geral a maioria não conseguia se safar, os zumbis eram lentos e burros, contudo em grande número, chegavam de toda parte e cercavam as vítimas.

Um homem de moto, desesperado, a mulher que estava na garupa já havia sido pega pelas criaturas, ele ia em direção ao Henrique, a toda velocidade, planejava atropelá-lo. Henrique só via comida, e foi na direção da motocicleta, seria morto, pela segunda vez. Poucos segundos antes de ser atropelado, outro zumbi entrou na frente da moto e desviou sua trajetória. O zumbi foi despedaçado, o homem voou da moto e foi atacado rapidamente e Henrique jogado longe. Caído, nem mesmo conseguiu um pedaço do corpo do motoqueiro. A fome aumentava e o corroia por dentro, nada mais havia naquele lugar a não ser zumbis vagando sem rumo.

Vagar, andar sem rumo atrás de sua necessidade maior, foi o que sobrou para Henrique, que começou sua jornada sem saber para onde ia, o que ia acontecer. Andou por dias quase sem parar, as vezes escutava ou via algo que lhe chamava a atenção e mudava seu rumo. A fome que lhe consumia as entranhas e a mente não passava, não encontrara nada para comer, mas mesmo assim não sentia cansaço ou fraqueza, ele apenas continuava. Foi até se acostumando com a fome, e com isso conseguindo até pensar um pouco, não como os vivos, mas mesmo assim um grande avanço para sua condição degenerada.

Ele pensava em porque estava andando, e para onde. Porque sentia tanta fome? E quanto mais ele andava sem encontrar comida, mais ele conseguia pensar, caminhava para superar seu instinto primário. Mas ao primeiro sinal de vivos, tudo se perdia e ele ia em busca do alimento. Quando o conseguia então, meses de reflexão se perdiam em carne humana fresca.

Certa vez quando já estava há quase um ano sem se alimentar, seus pensamentos já não sumiam ou se perdiam em sua cabeça, foi então que decidiu que não mais se alimentaria, já percebera que não morreria por isso, já estava morto. E incrivelmente conseguiu resistir, um mês depois escutou o som de pessoas conversando dentro de um celeiro por onde passava, a vontade de comê-las foi forte, mas ele continuou andando, tinha conseguido. Segundos depois uma bala atravessa seu cérebro, o vigia do acampamento o alvejara para manter a segurança de seus companheiros; e Henrique vai ao chão de novo, desta vez pra sempre.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O andarilho - Parte 1

Até Tu Brutus


Henrique era um homem comum, em nada se destacava na multidão. Um cidadão de classe média que tinha esposa, um filho e morava num apartamento pequeno e aconchegante na cidade de São Paulo. Ele não tinha grandes opiniões formadas sobre assuntos polêmicos e nem pretensas ideologias. Ele queria apenas viver uma vida confortável e pacata com sua família e amigos até que a morte o levasse para o desconhecido.

E foi exatamente isso o que aconteceu, a morte chegou para Henrique, apenas um pouco antes do que esperava. E assim como ele acreditava, tal espírita que era, a morte não era o fim, apenas uma mudança na forma, um outro tipo de vida. Só não era o que ele imaginava ser, na verdade era bem diferente.

Henrique tinha acabado de chegar do trabalho, e já na entrada notou algo diferente do costumeiro, não sentiu o cheiro do jantar. Ao passar pela sala viu sua esposa aflita em frente à televisão, nem mesmo percebeu sua chegada. Ao indagar a esposa o que acontecera logo foi puxado para frente da TV. Na tela um tele jornal, e edição extraordinária, falava de uma epidemia que se espalhava rapidamente nos EUA. Não se sabia ao certo que doença era aquela, os repórteres apenas alertavam quanto à transmissão muito rápida da doença.

Ele não deu muita bola não, disse que era coisa de americano, e que só queriam assustar as pessoas; e mesmo que fosse verdade, essa doença não chegaria até o Brasil. Ele não poderia estar mais enganado. De qualquer forma, Henrique continuou levando sua vida como sempre. Ouviu falar que a doença continuava se espalhando, que chegara a America Latina, mas dai então não ouviu mais nada, nenhuma notícia chegava dos EUA. Ele não se preocupou mais. Outra semana passou e então ele começou a receber notícias verdadeiras e mais completas sobre a doença. Aparentemente ela fazia com que as pessoas morressem rápido, devido à infecção e febre, e que já se alastrava pelas maiores cidades do país.

Mas como assim, Henrique morava em São Paulo, e não tinha visto nada de estranho. Naquele dia, ao chegar do trabalho, sua esposa disse que seu filho estava com febre alta, tinha chegado assim da creche. Ele tentou baixar a febre do filho, mas o garoto não respondia aos medicamentos. No hospital o caos era completo, o lugar estava repleto de pessoas com essa febre, alguns jogados nos corredores, pois os leitos já não eram suficientes. De repente gritos: UM DELES ESCAPOU! CUIDADO, CUIDADO! E Henrique o viu, andava devagar, parecia não ter rumo, até que atacou uma outra paciente que esperava no corredor. O homem mordeu a mulher, arrancou-lhe um pedaço do braço e começou a mastigar. Nesse momento o segurança chegou para dominá-lo, mas acabou sendo mordido também. Todos são levados para uma outra sala. Em poucos minutos um médico e dois enfermeiros saem correndo e o segurança que havia sido mordido caminhava atrás deles.

Neste momento sua esposa volta desesperada, gritando que seu filho tinha morrido. Henrique faz força para manter um mínimo de sanidade ao ver o corpo de seu filho de cinco anos nos braços de sua esposa. Já em desespero Henrique toma-o em seus braços e corre para além da sala de espera onde estava, na esperança de encontrar um médico e salvar a vida de seu filho. Correndo com a criança nos braços para dentro do hospital bate de encontro com o segurança que na mesma hora vai ao chão. Henrique sem se preocupar e nem mesmo olhar direito para o homem que ele havia derrubado, continua correndo a procura de um médico. Se tivesse olhado para o segurança no chão teria visto que ao cair ele agarrou a perna de uma mulher que passava e a mordeu, fora a aparência putrefata do segurança. Mas nem mesmo o grito da mulher ele ouviu.

Correndo desesperado ele encontrou uma sala vazia e colocou seu filho em um dos leitos. Tentava reanimá-lo de todas as formas, gritava por ajuda médica, mas ninguém o atendia. Começou a chorar sobre o corpo do filho na cama perguntando a Deus porque fazia isso com ele. Então Henrique sente que seu filho voltava a se mexer, olhou para ele e o garoto estava com os olhos abertos. Uma alegria tão grande preencheu seu corpo que ele nem mesmo reparou no aspecto estranho da criança. Apenas o abraçou, chorando e dando graças a Deus por devolver seu filho.

Sentiu, assim, uma mordida em seu pescoço. Assustado afastou o garoto de seu corpo e ele mastigava a carne do próprio pai. Henrique percebera agora o que estava acontecendo, perdeu as forças e foi ao chão. Seu filho, já em outro estagio da “vida”, rolou por metade do quarto com o impulso da queda de seu pai e, assim que pode levantou-se para ir atrás das pessoas que passavam correndo na porta.

Algum tempo depois Henrique também levantou, mas já não era o mesmo. Já não sentia a perda do filho, nem mesmo lembrava dele, nem da esposa. Tudo o que sentia era uma fome imensa, uma vontade incontrolável de comer carne humana.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Nostalgia pouca é bobagem

Muitas das pessoas que são admiradas na sociedade são vistas como “a frente de seu tempo”. São pessoas do futuro, – eles dizem – pensam a frente. Sabemos muito bem que essas pessoas não são exatamente do futuro, apenas não ficam tão grudadas às imposições da sociedade, tendem a se libertar um pouco mais.

Mas esse não era o caso de Adalberto, não que ele fosse uma pessoa presa aos padrões da sociedade, muito pelo contrario. Ele não era uma pessoa a frente de seu tempo, isso ele não era mesmo. Adalberto era um cara atrás de seu tempo, ele não se dava de jeito nenhum com a época em que vivia, não gostava mesmo. Por isso ele escolheu outra época para viver.

Ele não compreendia aquele mundo maluco, onde tudo mudava sempre e sempre, onde o que era legal num dia, no outro era “podre” e depois voltava a ser “cool”. Ouviu ate uma música sobre um cara que mudava de forma toda hora, e mudava junto de opinião, metamorfoseava-se, essa era a palavra da música. Adalberto não gostava de nada disso, quando ele gostava de alguma coisa, gostava mesmo, não deixava de gostar só porque estava fora de moda, e nem começava a gostar porque era popular.

Assim, ele era bem diferente de todos à sua volta, isso ocasionava muitos problemas ao garoto. Perto da adolescência, quando decidiu que queria viver em outra época, ainda não sabia em que época queria viver, apenas não houvera de ser aquela. Sua mãe achava muito estranho o garoto aparecer de modos completamente diferente de tempos em tempos. E dizia “Essa moçada de hoje em dia não sabe o que quer”, e Adalberto respondia sempre com um “Não sou de hoje em dia mãe”. Já seu pai, um cara muito legal e com um espírito sempre jovem, incentivava o garoto, e dizia para sua esposa “Deixa o menino Raquel, deixa ele se encontrar”. Carlos, o pai de Adalberto, sempre o levava a museus e antiquários para lhe mostrar as coisas de outra época que ele tanto gostava.

Mas logo o garoto se encontrou, Adalberto percebeu que o que ele gostava de verdade era de sua infância, gostava dos anos 80. Naquela época, dizia ele, as coisas eram muito mais batutas. Ele percebeu que conforme crescia seus amigos foram se transformando, de acordo com as mudanças da sociedade. Mas ele não gostava dessas mudanças, foi quando decidiu que não gostava daquela época, e acabou perdendo o contato com seus amigos. Cada vez mais ele entrava nos anos 80, passava as tarde assistindo filmes como “Clube dos Cinco” e “Conta Comigo”, conseguiu também os desenhos daquela época, e não se importava se eram repetidos, ainda assim eram muito melhores do que os que passavam na televisão.

Adalberto também se vestia como se estivesse nos anos 80, pois pra ele, estava mesmo; não se importava que o resto do mundo já tinha passado da virada do século. Ele continuava a ser um cara descolado, com sua jaqueta jeans surrada, calças rasgadas e um walkman amarelo da Sony, onde ele escutava punk, hard rock e pós-punk. Entristecia-se ao saber que nunca iria ver a maioria de seus ídolos.

E assim ele passou sua adolescência, sem muitos amigos, pois todos o achavam muito estranho, maluco, diziam alguns; algumas garotas da escola falavam que ele era “retrô”, ele nem mesmo sabia o que era isso. Mesmo assim Adalberto não foi um jovem infeliz, o mundo que escolheu viver era acolhedor. E quando terminou a escola tinha certeza do que ia fazer, era óbvio, História, não teria como escolher outra coisa. Era o que ele mais desejava, uma profissão onde pudesse continuar a viver em seu mundo, sem ter que se adequar as maluquices do século XXI. Bom, não foi bem o que ele encontrou. Na faculdade ele passou a se enturmar um pouco mais, claro, lá ser diferente é que é legal. Mesmo assim ainda tinha gente que não gostava dele, a maioria eram uns caras com camisetas vermelhas e a estampa de um cara morto; o chamavam de reacionário. Enfim, a faculdade acabou e Adalberto agora tinha que arrumar um emprego.

No entanto, nisso ele teve sorte, os anos 80 viraram moda e hoje Adalberto trabalha num museu sobre o tema e é visto como um cara “super-prafrentex”. No entanto ele continua o mesmo, quando a moda passar ele vai ser o velho cara esquisito de sempre, e Adalberto ainda não entende esse mundo maluco.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A caixa de Pandora

Epimeteu, era um homem estranho que caminhava por estradas vazias, passava por pessoas e lugares e apenas continuava andando. Ele não reparava mais nas pessoas, pois a muito já tinham deixado de reparar nele. Para os outros, Epimeteu era apenas uma sombra ambulante, a personificação de algo que existe em todos, mas que ninguém gosta, tem medo. Para ele os outros eram estranhos em quem não conseguia confiar, não se permitia.

As vezes sentia uma forte vontade de se estabelecer num lugar como todo mundo, mas não conseguia, tinha que continuar sua busca. Ele sabia que sua busca não seria nada fácil, e talvez também nunca chegasse a seu propósito final. Tantos já haviam tentado e falhado, desde tempos imemoriáveis.

Certa vez quando parou para descansar conheceu algumas pessoas, já caminhava há bastante tempo sem parar. Se lembrando de tempos antigos antes de iniciar sua busca, antes de se preocupar com coisas inúteis, individualistas e repulsivas do mundo, ele se encantou com aquelas pessoas com quem se parecia. Essas pessoas que conhecera também pareciam estar perdidas e procurando algo. A diferença é que Epimeteu já sabia o que buscava, mas isso só o fazia mais triste e perdido, pois não se alienava na segura ignorância.

Por algum tempo se sentiu bem junto daquelas pessoas, no entanto sabia ele que essa alegria teria um fim próximo. Tentou preparar-se para tal, mesmo assim quando chegou a hora, se sentiu totalmente vazio, mais do que antes, pior do que quando estava sozinho, pelo menos até aquele momento.

Um pouco antes de partir de novo, pois lembrara de sua busca importante, conheceu outra pessoa. Epimeteu já havia estado com esta pessoa antes, junto com os outros. Mesmo assim agora era muito diferente, como se nunca a tivesse visto ou reparado. Se encantou de imediato, como se estivesse enfeitiçado; não pensava mais na solidão de sua busca, ate tomara forma novamente, deixara de ser apenas uma sombra. Sua busca fora novamente deixada de lado, parecia não ser necessária no momento.

Não mas que de repente aquilo tudo veio a baixo, ele nem mesmo sabia descrever como aconteceu, sabia que não existia mais. No lugar daquele sentimento que aquecia seu peito Epimeteu construiu um muro de concreto, para nunca mais ser aberto. Voltou a ser a mesma sombra, voltou a sua busca.

A estrada era de novo sua única companheira, fiel e devastadora. Ao mesmo tempo em que não o abandonaria em momento algum, não o acalantava, muito pelo contrario, minava sua vontade de continuar. No entanto Epimeteu jamais desistira, continuava na sua busca sem rumo por esperança.